Era fevereiro de 2017. Estela, então no 5º ano, pediu para mudar de escola no ano seguinte. Ela já sabia qual queria. Em menos de uma semana, começou o cursinho preparatório para a prova de seleção em outubro. Durante nove meses, estudou com seriedade matérias que seriam cobradas. Tudo ainda novo para ela. Tocou o 5º ano no paralelo. Lindamente. Nunca faltou uma aula, nunca reclamou de uma lição, nunca mostrou desânimo. As amigas, inseparáveis há anos, pediam para ela desistir. Pedidos ignorados. Estela falava da escola como um sonho, um sonho só seu.
A verdade é que abraçamos o sonho com ela.
Outubro chegou. Lá foi ela valente para três dias de provas. Estela levou o processo a sério. Enquanto outras crianças, algumas conhecidas, riam e brincavam antes das avaliações, ela nem piscava. Estava focada. No final, as colegas de prova comentavam as questões e as possíveis respostas. Estela fugia do assunto. Era seu universo particular. Não queria compartilhar nem elocubrar. O resultado viria pelo correio em novembro.
Novembro chegou. E, no dia do seu aniversário, o carteiro trouxe a carta. ‘Você ficou em 7º excedente’, dizia o texto. Foi a primeira grande decepção da Estela. A família se segurou para não demonstrar toda a tristeza sentida. Ela, surpreendentemente, disse: ‘Eu vou entrar nessa escola. Tentarei novamente no ano que vem’.
2018 chegou. No primeiro dia letivo, em fevereiro, liguei na escola para saber a quantas estava a lista de excedentes. Fui informada que tinham chamado os primeiros 6 e, raramente, a fila andava além disso e, mais raramente ainda, após os inícios das aulas. Guardei esse segredo comigo. Ficar na trave do gol seria reviver todo o sofrimento de novembro. Decidimos, eu e o pai, encerrar o assunto. Vida que segue.
Ao longo do primeiro semestre, frequentemente, ela falava da escola. Será que o uniforme é obrigatório? Podemos sair dos portões no recreio? Soube que a lanchonete é superlegal, tem até sushi! Mãe, posso voltar para o cursinho? Farei a prova novamente.
Ao longo do primeiro semestre, esperei pelo telefonema que me diria que a vaga dela estava disponível. Alguém mudou de cidade, alguma criança não se adaptou… Pensei no assunto diariamente. Acendi vela. Pedi que o melhor acontecesse.
As férias chegaram. E, no primeiro dia, o telefone tocou: ‘Ainda tem interesse na vaga para a Estela?’. Opa! Coração parou. Fui correndo conversar com a orientadora, ver lista de material, efetuar a matrícula. Boleto pago, vaga garantida, liguei em casa. ‘Filha, vamos comprar uniforme novo! Você vai mudar de escola.’ Ela chorou emocionada. Chorou baixinho, contida, discreta. Chorou aliviada e realizada.
Como disse no início do texto, abraçamos o sonho com a Estela. Agora, que ele se concretizou, abraçamos o projeto também. Até o momento, nunca precisei sentar e estudar junto. Sempre ajudei a se organizar, mas sentar junto não. Essa mudança no meio do ano, no entanto, traz um enorme desafio. A nova escola exige mais e ela precisa correr atrás desse semestre perdido. Não seria justo soltá-la na boca dos leões. Com o apoio da escola, pegamos apostilas e traçamos um planejamento das matérias que precisam ser vistas. Dividimos o material pelo tempo das férias e traçamos metas. Estudamos 4 horas por dia. Aos sábados, ela descansa. Estela senta à mesa sem reclamar, sem desanimar, sem pedir trégua. Férias, ela mesmo diz, só no próximo janeiro.
Estela, a baixinha da casa, é um gigante. Um gigante na determinação. Com ela, aprendemos mais do que ensinamos. E, seus sonhos, dos menores aos grandalhões, são e serão sempre nossos também.
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