Vida de Menina

Antes tarde do que nunca

Quando o pediatra catalão Carlos González esteve no Brasil, para o lançamento do seu livro ‘Meu filho não come’ (Editora Timo), eu achei um pouco exagerado o espaço que ele conseguiu na mídia, justamente por ele defender teorias que para mim sempre foram óbvias, naturais e inquestionáveis

  1. Não se deve obrigar um filho a comer. Não é porque os meus três filhos têm apetite que eu subestimo essa questão. Desde pequena, ouço minha mãe dizer que criança, quando tem oferta, não passa fome. A maioria come pouco, o necessário. Talvez por não pedir nem insistir para limpar o prato, meus filhos comam bem.
  2. Colo em excesso deixa uma criança mal acostumada. Mal acostumada a quê exatamente? A carinho? A afeto? Ao aconchego da mãe? Dei colo na medida: quando pediam, quando estavam tristes, cansados, carentes e, na maioria das vezes, quando eu queria apertá-los. No final, eles pediam para descer. Agora, maiores, meu colo passou a ser aquele afago na cama antes de dormir ou no sofá da televisão. Não vejo como isso pode fazer mal a alguém.
  3. Nunca ignore uma criança chorando. Uai! Isso não parece óbvio para qualquer mãe? Quem consegue ignorar um filho visivelmente em sofrimento? Não conheço pessoas assim. Birra, sim, deve ser ignorada. E isso, as mães sabem distinguir muito bem. Uma pirraça, um teatro, um drama forçado merecem o silêncio da mãe. Mas um choro jamais!

Mas aí teve uma teoria do doutor González que eu descordei até… o último sábado. Ele acredita que os filhos podem dormir na cama dos pais até quando quiserem. Segundo o médico, eles sairão sozinhas à medida que não acharem aquilo tão interessante ou especial. Concordo que um dia, sim, eles sairão. Se tudo correr dentro do previsto e do comum, na adolescência as crianças vão querer distância da cama dos pais – pelo menos quando os pais estiverem lá. Mas não é por isso que mantive minha cama território proibido para meus filhos. As razões eram outras. Umas mais egoístas: eu queria meu espaço, minha privacidade, minha noite de sono sem joelhos e cotovelos. Outras mais pedagógicas: queria que eles se apropriassem dos seus quartos, desenvolvessem autonomia e aprendessem a relaxar, dormir e, se acordassem no meio da noite, a voltar a pegar no sono sem ajuda de um adulto. Também queria que se sentissem seguros longe – a poucos metros apenas – de mim.

No último sábado, entretanto, meus três filhos tomaram a segunda dose da vacina contra meningite B. Os três sofreram as reações. O local ficou insuportavelmente dolorido. Eles não conseguiam tirar a roupa sozinhos, dobrar ou esticar o braço. Deu dó. As mais velhas adormeceram em suas camas, com choro e Novalgina. Queriam ficar sozinhas para não correrem o risco de alguém encostar nelas. Mas Tom não aguentou. Às duas da manhã, veio para nossa cama. Foi a primeira vez em 6 anos e 5 meses de vida. O choro era sofrido, com lágrimas. Não ignorei, dr. González! Baixei a guarda, afrouxei a regra e o coloquei entre nós. Ele dormiu. Dormiu um sono intranquilo. Consequentemente, minha noite não foi das melhores. Mas gostei de tê-lo ali, sob minhas asas. E, por mais estranho que pareça, agradeci por ter sido tão dura por tantos anos com todos eles. Ao contrário, teria mantido os três comigo desde sempre. A razão é simples: sentir a respiração e o cheiro de um filho dormindo é a melhor coisa do mundo. E eu só descobri isso agora!