Toda mãe vive o mesmo drama: espiar ou não espiar a vida da filha? Abrir as gavetas? Mexer na mochila? Dar uma voltinha no celular? Com toda a autonomia e arrogância típica dos 14 anos, as meninas querem privacidade. E, nós ficamos como? Bem, por um lado, nós achamos que elas merecem e nos sentimos mal quando damos aquela olhadinha básica no particular alheio. Por outro…
(Aqui vale uma ressalva: quando digo ‘espiar’, não é no sentido negativo e curioso da palavra. Essa espiada, este observar secreto, é uma medida para proteger nossos filhos de outras pessoas e, principalmente, deles mesmos.)
Mas, há alguns dias, assisti uma palestra sobre o tema e fiquei feliz demais ao ver que a minha opinião sobre o assunto tem o respaldo de sumidades como a psicóloga e consultora educacional Rosely Sayão. A fala dela reforçou a importância desse nosso papel na educação.
Rosely Sayão deixa claro que privacidade não é um direito da criança/adolescente, e sim um privilégio. Privacidade é um benefício da vida adulta. Privacidade é um bem que vale ouro e custa caro. Privacidade é uma conquista. Quando se perde a confiança, perde-se também o direito à privacidade. Simples assim. Se damos um departamento para o filho administrar e ele não o administra corretamente, perde este poder.
A pediatra mineira Filomena Camilo do Vale, que além de cuidar da saúde física das crianças, virou uma espécie de guru emocional das mães, segue a mesma linha. Dra. Filó, como é conhecida, bate na tecla do limite em suas palestras Brasil afora. Ela diz:
‘Rio só existe porque tem margem. A criança só será um adulto completo se tiver limites.’
‘Criança tem que ser monitorada.’
‘Criança não tem que ter senha. Essa tal de privacidade é só quando eles saem de casa, só quando pagam as próprias contas.’
O resumo da ópera é bem simples – ainda que difícil de colocar em prática. Não podemos abrir mão de participar de todos os detalhes da vida dos nossos filhos. Isto não significa que estamos aqui para sufocá-los. Mas, eles precisam saber que a qualquer momento, sem aviso prévio, você pode abrir gaveta, mexer em mochila e, sobretudo, dar uma espiada nas redes sociais e conversas de Whattsapp.
Privacidade no banho, nos cuidados pessoais, nas paqueras, pode fazer sentido. Privacidade em assuntos que podem colocar minha filha em risco ou nos quais ela não tem autonomia ou capacidade de decidir sozinha, a cena muda. A verdade é que existe uma ligação forte e direta entre a quantidade de privacidade e de responsabilidade, consistência e honestidade que eles precisam nos entregar.
Quando está tudo bem, está tudo ótimo! Se a criatura está na linha: respeita horários, está onde diz estar, mantém as obrigações em ordem e os combinados alinhados, não há razão para suspeitar. Neste cenário, espiamos menos. Confiamos. Quando ocorre a quebra de confiança, a história muda. Esqueça o que é justo ou de direito. A segurança está acima de tudo. Até porque, é nossa responsabilidade proteger nossos filhos mesmo quando eles não querem. Como afirmou Rosely Sayão na palestra: ‘Soltar um filho, ainda que na internet, sem supervisão é um desrespeito com ele’.
Por fim, para não passar a adolescência brigando pelo justo, pelo correto, pelos direitos de um ou de outro, faça combinados antes. Quando as regras são claras e os acordos são previamente definidos, não há espaço para bate-boca. Ter acesso ao celular, por exemplo, é uma determinação, defende Roseli. Para esta regra, não há negociação. Parece fácil, né?
Você confia no seu adolescente?
Atualizado em 25/03/2019.