Vida de Menina

A primeira grande decisão de uma adolescente

Lara, 14 anos, frequentou a mesma escola desde bebê. Passou por diversos professores, secretárias, auxiliares. Teve muitas festas, muitas alegrias, muitos amigos. Foi feliz… até o começo deste ano, quando deixou de se identificar com o colégio, com as pessoas, com o ambiente. E, pediu para sair. Combinamos que ela terminaria o ano lá e mudaria em 2019. Assim, teríamos tempo de pesquisar e escolher a nova escola com tranquilidade. A escolha, no entanto, já estava feita por ela. Depois de uma longa pesquisa, escolheu uma escola tradicional, rígida, competitiva e com altíssimo índice de aprovação em vestibulares concorridos. Além do desafio acadêmico que enfrentaria, precisaria também atravessar a cidade de metrô. Sozinha. Todos os dias. Mas, naquele ponto, 2019 ainda parecia longe e todas as dificuldades estavam suavizadas pela distância do tempo.

Mas o tempo passou. A irmã mudou de escola, como contei aqui. Escola excelente, concorridíssima e do lado de casa. Na hora da matrícula, inscrevi Lara na lista de espera para vaga de irmão de aluno. Esta lista, pelo o que me disseram, era realmente de espera. Raramente, viraria realidade. E Lara respirava aliviada. Sempre teve a certeza de que não iria, mesmo se esta vaga caísse em seu colo. Queria atravessar a cidade, conhecer gente nova, começar uma nova história.

Dezembro chegou. Coladinho em 2019. Para nossa surpresa, a fila de espera andou. Lara conseguiu a vaga de irmão. Nós tínhamos cerca de 12 horas para confirmar essa matrícula. Doze horas difíceis. Para mim. Para ela, a decisão estava tomada. “Recuse, mãe! Não serei feliz lá.”

O cenário que se montou foi o seguinte. De um lado, a certeza de um adolescente e minha vontade de deixá-la fazer escolhas e se responsabilizar por elas. Do outro, o meu desejo de mantê-la perto, na zona de conforto, do lado de casa, indo e vindo no carro da mamãe. Mais do que isso, pesavam também as dúvidas: será que ela pode ter a autonomia desta decisão? Será que um dia, caso ela se arrependa, serei culpada por ter deixado uma escolha tão importante em suas mãos? Será que meu bebê vai dar conta de tudo tão longe da nossa bolha de proteção? E, se eu a obrigar a ficar aqui, ela terá forças para enfrentar uma adaptação contra sua vontade? Se for e odiar, vai pensar eternamente como tudo poderia ter sido diferente?

Passei a noite em claro. Engasgada. Perguntando e respondendo minhas próprias incertezas. Acordei pronta para lançar a sorte. Deixei minha filha de 14 anos escolher a escola que deseja estudar. Recusei a vaga na escola que, ela bem disse, fora sempre meu sonho, não o dela. Sim, mãe, não impus minha vontade. Ouvi sua neta! Ouvi seus argumentos e, principalmente, seu coração.

Deixar filho fazer escolhas, enfrentar desafios, quebrar a cara, ser feliz com as próprias decisões… em outras palavras, deixar filho crescer não é fácil. É necessário e impreciso. Engloba erros e acertos. Demanda coragem, nossa e dele. Mas, nas 12 horas antes de mandar o e-mail recusando a tão disputada vaga, só pensava em uma coisa. Ninguém quer a felicidade e o sucesso da Lara mais do que eu. E, aconteça o que acontecer, ela sempre vai saber disso.

Atualizado em 12/12/2018.