A automutilação está acontecendo dentro de nossas casas.

Automutilação não é moda – nem nunca será

Mangas longas em dias quentes. Calças compridas sempre. Portas de quarto e banheiro fechadas. Privacidade exigida ao extremo. Tristeza, oscilação de humor, melancolia. E, pequenos cortes e arranhões, sem explicação. Observe estes sinais.

Por mais estranho que pareça, há uma nova modinha entre as adolescentes: a automutilação. O comportamento não é novo, porém não pode ser banalizado ou encarado como uma tendência da idade. Mas, estudos importantes mostram um aumento da incidência nos últimos anos e uma certa naturalidade dos jovens quando o assunto vem à tona. Especialistas chegam a comparar a automutilação com a bulimia dos anos 90 ou com alguma substância leve que dá barato e seduz a turma dessa faixa etária.

Moda ou não, a automutilação – ainda que sem intenção de tirar a vida – é um dos principais fatores de risco para suicídio, segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Ela atinge meninas e meninos de todas as etnias e classes sociais. Há estudos que mostram que cerca de 20% dos jovens, em algum momento da vida, praticam um ato de automutilação. Nota a gravidade? Ainda assim, o assunto é desconhecido, assustador e cheio de mistérios.

Muitos pensam que quem se automutila é doido, problemático ou deprimido. De fato, a automutilação é mais comum entre pessoas que têm algum distúrbio, como ansiedade, depressão, vício em drogas ou transtornos alimentares. Porém, de 15 a 20% dos adolescentes que se machucam não apresentam nenhuma questão especial. Em sua maioria, são apenas jovens mais sensíveis e menos capacitados psiquicamente para lidar com estresse emocional e frustração. Muitos deles também têm mais dificuldade para se expressar e controlar o humor. Atualmente, muitos especialistas observam a automutilação como um rito em alguns adolescentes. Depois de poucos episódios leves, eles se desinteressam pela ‘brincadeira’ sem grandes consequências.

Muitos pensam que quem se machuca quer se matar. E isso não é verdade, embora a automutilação seja um fator de risco para o suicídio. O ato de se ferir, segundo especialistas, é para muitos adolescentes a forma que encontram para lidar com as emoções negativas, as tristezas, as frustrações e a raiva. Quando eles cortam, furam ou queimam o próprio corpo, por exemplo, eles se sentem no controle. Seria como se, ao provocar uma dor física, a dor psíquica fosse amenizada. Obviamente, a automutilação não apaga o sofrimento. No paralelo, ela causa vergonha, culpa, raiva e mais tristeza.

Muitos pensam que quem se automutila está apenas tentando chamar atenção, causar, ser o centro, nunca com o objetivo de se matar. Isto é uma avaliação perigosa. Uma criança ou um adolescente pode, sim, se ferir para tentar mostrar aos pais, amigos, familiares que está em sofrimento. Esta pode ser uma forma que encontram para isso. E, em grande parte dos casos, não está acompanhando de ideação suicida – quando se pensa e planeja a própria morte. No entanto, estudos mostram que quem se machuca tem maior probabilidade de tentar o suicídio do que a população geral. Ou seja, não dá para ignorar, banalizar ou normalizar a automutilação.

É uma fase? Vai passar quando a adolescência acabar? Talvez sim. Talvez não. Estudos mostram que pode seguir ali até os 30 anos de idade. Segundo especialistas, a automutilação dá um alívio, provoca bem-estar. Mas, isso acontece naquelas pessoas que estão passando por algo mais profundo, que merece atenção. Ao sentir um conforto com a automutilação, esta jovem vai aumentar a frequência e a força e precisará cada vez menos provocação para se machucar. Já para as meninas que estão seguindo uma modinha, influenciadas por filmes, séries e amigas, o efeito não será agradável. Assim, elas farão algumas vezes e não levarão adiante.

Seja qual for a motivação ou a razão, toda situação de automutilação deve ser cuidada. Procure um psiquiatra. Considere uma terapia. E, sempre, converse com sua filha. Mais do que isso: esteja disponível para ouvi-la.

Os dados científicos deste texto foram consultados na International Society for the Study of Self-Injury e no site WebMD. Em inglês, eles são https://bit.ly/2OGTBZI e https://wb.md/2uG26eh

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Atualizado em 01/04/2019.

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Mineira de Belo Horizonte, jornalista, mãe de duas meninas de 12 e 15 e um menino de 9 anos. Criadora e editora do blog Vida de Menina.

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