Conforme previsto no manual da adolescência, andamos mais uma casa na lista dos modismos – só não sei se para frente ou para trás. Lara, 13 anos, é oficialmente vegetariana. Por hoje. E, eu ganhei mais uma função. Mas, está tudo certo. Optei por apoiar as causas escolhidas e, assim, minimizar conflitos. O curioso é que o desafio, que essa escolha impõe, parece estar mais pesado para mim do que para ela, que até agora só precisou abrir mão de um pedaço de carne.
A loucura começa no supermercado. Ao lembrar de todas as receitas que uma amiga vegana me passou, percebo que além do trabalho do cão para preparar shitake e ervilha-torta, ainda vou gastar uma grana. Ser vegetariano, vegano, orgânico e todas as outras formas de se alimentar que fogem do padrão arroz-feijão-bife-salada custam muito caro.
Mas, como disse acima, estou apoiando. Em busca de consolo e ideias, ligo para a minha mãe, que já passou por isso com a minha irmã caçula. Ela me lança uma série de perguntas, que respondo aqui:
Lara não gostava de carne?
Ela ama carne! Suspira com o cheiro de um bife. A cada três refeições, esquece que é vegetariana e come um presunto, uma coxinha, um molho a bolonhesa. A grande motivação foi o sentimento de dó e compaixão que afloraram após ver um documentário sobre os maus tratos em animais confinados para engorda. Mas, a cereja do bolo foi a ideia (errada) de que cortar um grupo de alimentos vai render um abdômen tanquinho até o feriado.
Lara vai preparar as próprias refeições?
Claro que não! A mocinha aqui raramente lava uma maçã ou descasca uma banana. Quando muito, faz pipoca. Por isso, repito o quanto essa decisão é trabalhosa e desafiadora para uma pessoa apenas. E não é ela.
Lara vai abrir mão de coxinha, sua grande paixão?
Bem, logo no segundo dia como vegetariana, ela se esqueceu que coxinha tem frango, que frango é animal, que vegetarianos não comem animal. Comeu a coxinha. Mas se arrependeu, o que, no seu ponto de vista, anula o peso da refeição com carne.
Lara vai voltar a consumir leites e derivados?
Ainda não. Há cinco anos, ela não suporta o cheiro de leite e detesta queijo. Ou melhor, detesta queijos que não estejam na pizza, no hambúrguer ou no pastel. O negócio é bem seletivo.
Antes de desligar, minha mãe conclui:
‘Lara não completa um mês nessa onda.’
Eu, por outro lado, sigo apoiando. Nem quero desanimá-la. Seja por amor aos bichos ou pelo sonho da barriga sarada, estou junto. Mas, como para tudo mais que ela já quis fazer – piercing, depilação a laser, mechas californianas -, eu insisto: pesquise o assunto. Quantas colheres de feijão substituem um bife? Como garanto uma alimentação saudável? Posso ganhar peso com trocas erradas? Meu corpo tem condições de ficar sem carne? Enfim, antes de tomar a decisão, descasque esse pepino comigo!