Atire a primeira pedra quem nunca sonhou em mandar uma mensagem anônima para uma amiga que come de boca aberta ou para o colega que cheira mal. Mas, para o bem geral da nação e do mundo, a gente se controla, medita, se acalma e segue a vida.
A maioria dos jovens, no entanto, não tem essa disciplina. Quando eles querem falar, eles querem falar. E, falam. Hoje, para soltar ainda mais os freios, a tecnologia oferece inúmeros recursos. A distância entre o que pensam e o que dizem ficou praticamente inexistente.
Lara, minha adolescente, entrou no carro dias atrás toda animada. Estava conectada à mais nova moda dos teens, o Sarahah, aplicativo gratuito que permite mandar mensagens sem se identificar. É uma rede social, onde amigos e amigos de amigos interagem, de forma anônima. Lara achou o máximo. No caminho para casa, baixou o app e já saiu disparando mensagens para as amigas queridas: ‘Te adoro’, ‘Estava com saudades’.
Sarahah é hoje um dos aplicativos mais baixados no Brasil e nos Estados Unidos. Na teoria – e para aqueles de bom coração – promove a honestidade e a comunicação livre. Na prática – e para essa mãe vivida – ele nada mais é do que uma ferramenta poderosa para se praticar cyberbullying: humilhar, criticar, ridicularizar uma pessoa, sem dar a ela a chance de se defender. Além de não saber para quem estaria respondendo, pois o aplicativo não tem essa opção. Segundo Zain al-Abidin Tawfiq, desenvolvedor da tecnologia, a função do app seria exatamente poder alertar amigos e colegas, ou enviar-lhes críticas e elogios, sem causar constrangimentos.
De cara, Sarahah me causou um incômodo. Não consigo ver como positivo ou construtivo uma ferramenta que promove honestidade pelo anonimato. Levantei essa questão com minha filha. Você precisa se esconder para elogiar uma pessoa? Você precisa de um aplicativo que não mostra seu nome para dizer a uma amiga que a adora?
‘Ah, mãe! Você sempre vê o lado perverso.’
Ah, filha! É isso mesmo. Acho o anonimato perverso. Acho que as pessoas, quando escondidas e sem mostrar a cara, fazem coisas que não fariam assinando embaixo. Acho que Sarahah será usado muito pouco para declarações afetivas. E, quando for muito usada para manifestar amor, será condenada como ferramenta para o assédio. Ou seja, Sarahah é perverso. Mamãe enxerga a real.
Ela, obviamente, entrou para seu mundo, me colocou na estante das velharias ultrapassadas e seguiu brincando com Sarahah. Antes, porém, eu dei a ela uma aula de história. Afinal, a maioria das coisas que a tecnologia traz hoje – principalmente no campo de relações humanas – são questões antigas, embaladas pelo brilho da modernidade. Para me manter recente e dentro do assunto, eu contei que antes de ela ganhar seu primeiro celular, já existiam aplicativos para troca de mensagens anônimas. PopSecret, Whisper, Secret, para citar alguns. O Secret, que permitia postar confissões e compartilhar segredos, chegou a ter mais de 15 milhões de usuários no mundo. Em 16 meses, foi tirado do ar. Atraiu muitos usuários, fez muito barulho e causou muito estrago. Mostrou que tem muita gente querendo falar sem identidade. E, foi descontinuado ao ser considerado um instrumento inadequado, que promove falta de respeito e de educação. Ou seja, não sou a única a ver o lado perverso de tudo. Ainda bem!
A imagem que ilustra este texto é da série Where’s Wally?
